(BEM CLARO)
1. As redes sociais de internet – atualmente, sobretudo, o
facebook e o whatsapp – permitiram, como nunca antes, que as pessoas pudessem
expressar sua “opiniões”.
2. “Que maravilha!” Afinal, nada mais justo que cada pode
dizer aquilo que pensa sobre os mais diferentes assuntos. Isto, inclusive, é
motivo de orgulho para quem pensa, pois ao dar “opinião” sobre qualquer assunto
eu mostro para mim mesmo e para o mundo que sou uma pessoa inteligente e
antenada com o que está acontecendo, com o que já aconteceu e até mesmo com o
que pode acontecer.
3. Existe, no entanto, uma armadilha e que quase ninguém
percebe. A “opinião” não é sua. Ter uma opinião original é praticamente
impossível. Original, neste caso, significaria que ela nunca foi pensada e
manifesta por qualquer pessoa e em qualquer época.
4. Tudo que nós pensamos é resultado daquilo que se
manifesta coletivamente. Ou seja, já foi pensado e manifestado no seio da
sociedade. O que nos resta é fazermos escolhas. E aí mora o “segredo”.
5. As escolhas sobre aquilo que vamos opinar estão
diretamente relacionadas à nossa cosmovisão. É fácil entender: a nossa
concepção de mundo. E esta concepção também foi aprendida, quer saibamos disso
ou não.
6. Aprendemos por diversos meios. Um deles são as
experiências que vivemos. Por este meio vamos dando sentido às nossas ações e,
em certos casos, às nossas próprias reflexões. Outro é pelo saber universal. Ou
seja, o saber lógico-racional construído pelo homem ao longo de sua existência.
Este é o saber científico, base para a medicina, o direito, a arquitetura e tudo
aquilo que organiza e faz a nossa sociedade, como a consciência política,
histórica, sociológica, antropológica etc. E tem ainda, entre outros, o
mimético. O nome é estranho, mas ele é de fácil entendimento. É o conhecimento
que se faz pela imitação. Na essência todos seriam assim. No entanto, na prática,
este se faz pela imitação simplória e se realiza pelos memes de intenet
(aquelas mensagens curtinhas que circulam aos milhões todos os dias), pelas
fake news, pelos pequenos vídeos recortados e descontextualizados etc.).
7. Esta última forma de aprender – a imitação daquilo que é
publicado nas redes sociais de internet (e na televisão) – parece ser a
preferida pela maioria dos brasileiros. Isto se constata, pois não se encontra
com facilidade alguém que manifeste uma ideia fora daquilo que circula nas
redes sociais.
8. Neste cenário hegemônico, ou seja, dominado pelas
opiniões que são originadas das redes sociais de internet (e da televisão) nos
deparamos com uma questão espinhosa: os opineiros têm se tornado “especialistas”
nos mais variados assuntos. Ou seja, demonstram suas opiniões (que na verdade
não são dele) como se fossem verdades inquestionáveis.
9. Tornaram-se especialistas de tudo sem saber de nada (ou
quase nada), a não ser repetir por meio de “opiniões” aquilo que foi produzido
por outros. Explica-se. Comentam sobre tudo como autoridades: democracia,
geopolítica, medicina, história, astronomia, capitalismo, educação,
infraestrutura, estratégias militares, ciência, tecnologia. Calma! Não que não
possam, devem. Mas, no mínimo é preciso ter embasamento lógico-racional
científico para tratar deste e tantos outros temas.
10. Exemplo: democracia remete à liberdade. Mas liberdade
não se manifesta por apenas um prisma, ou seja, de uma única forma. No grego, “demo”
significa povo; “cracia”, governo. O governo do povo, ao longo da história se
transmutou em diversas formas. Do modelo primário, na Grécia antiga, quando
apenas os homens nativos discutiam e deliberavam na ágora (uma espaço próprio e público destinado para este fim) sobre
a própria sociedade, até a democracia liberal em voga hoje, muitas foram e têm
sido as variações da democracia. Atualmente, inclusive, estaria surgindo um
novo modelo de democracia, ainda sem nome e pouco perceptível, mas que
remeteria a um controle ainda maior da liberdade pelo Estado, embora
manifestado a partir das escolhas dos cidadãos.
11. Ora, se você não compreende, como mostrado no exemplo
acima, os aspectos mínimos dos fenômenos, a sua “opinião” sobre eles não pode
ser “vendida” como verdade nem para você mesmo nem para os outros (como se vê
nas manifestações, sobretudo, das redes sociais). Isto porque ela reflete apenas
a imitação que você consegue fazer daquilo que já foi feito.
12. Mas isto ainda não é o pior. O pior mesmo é quando o
imitador faz especulações sobre a imitação. Neste momento ele se transforma em
tolo (do latim: tollere = no sentido
de tirar, destruir, eliminar o juízo, a sanidade). Na prática, não utilizar a
lógica racional (preferencialmente, dado a sua abrangência, a científica), para
ir além daquilo que foi apresentado.
13. Como consequência, se já havia um sério problema em
apenas “imitar” por aquilo que é publicado nas redes sociais de internet (e na
televisão), dar novos sentidos ao que foi imitado (especulação) tem provocado
ainda mais prejuízo para o próprio sujeito e para a sociedade como um todo. Mas
isto é tema para outro reflexão.


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