(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva*) O Norte de Minas é um
dos berços da sociedade brasileira. O homem está nesta região desde cerca
12.000 anos antes do presente (AP). Estudos arqueológicos, a exemplo dos
realizados por André Prous da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),
indicam que os brasileiros ancestrais ocuparam o território entre os vales do
Peruaçu, o complexo de cavernas de Montalvânia e o rio São Francisco.
Esta população primitiva, reconhecida pela arqueologia como tradição Una sofreria dois grandes
impactos: primeiro com a chegada dos tupiguarani
há cerca de 600 anos antes do presente; depois pela presença na região do
colonizador luso-brasileiro a partir do final do século XVII.
Este segundo choque alteraria profundamente a trajetória
histórica destes povos ancestrais. O colonizador estabeleceu a partir do
Arraial de Matias Cardoso a ocupação colonizadora/sedentária desta região. Surgia
à civilização dos currais, a
sociedade que deu origem a Minas Gerais.
A partir da penúltima década do século XVII as dinâmicas
sócio-culturais desenvolvidas no curso médio do rio São Francisco, ou mais
precisamente o trecho entre os rios Verde e Carinhanha ao Norte e o rio das
Velhas ao Sul, não resultaria apenas das experiências e expectativas destes “brasileiros”
ancestrais, passavam também a serem impregnadas das experiências e expectativas
dos colonizadores, das populações subalternizadas transplantadas e, sobremaneira,
dos mestiços que surgiam do encontro destas diferentes matrizes
étnico-históricas.
São estes mestiços oriundos dos brasileiros ancestrais com
as outras matrizes étnico-raciais estabelecidas nesta região entre fins do
século XVII e início do XVIII que são os verdadeiros proto-nortemineiros e
mineiros. São eles manifestação legítima do que é ser efetivamente brasileiro.
* Historiador; especialista em História e Cultura Afro-brasileira;
Mestre em Sociologia, Antropologia e Ciência Política pela PUC Minas. Autor do
livro: Manga: encontro com a modernidade (2010) e de Terra de Contato (no
prelo).
P.S.: O arraial de Morrinhos (atualmente Matias Cardoso) foi
um dos primeiros núcleos povoadores do Sertão dos currais do rio São Francisco.
A igreja – a mais antiga de Minas Gerais – foi erguida em sua forma definitiva
provavelmente no início do século XVIII.


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