O movimento libertário e republicano irrompido em 1789, em Vila Rica (hoje Ouro Preto), foi sufocado pela Coroa e não passou da conspiração, mas foi intenso o suficiente para dar nova perspectiva aos colonos e iniciar um processo de mudança que concretizaria a profecia anunciada em seu lema: liberdade, ainda que tardia.
Vila Rica era a capital da então Capitania de Minas Gerais e foi palco dos remotos entendimentos entre os estudantes brasileiros que cursavam as Universidades de Coimbra, Montpellier e Bordeaux. Um deles, José Joaquim da Silva Maia, dirigiu-se em 2 de outubro de 1786 ao ministro americano em Paris, Thomas Jefferson, com uma carta na qual assinava com o pseudônimo de Vendek pedindo a proteção e o apoio da poderosa nação norte-americana.
Chegaram a ter uma conversa em Nimes, mas nada de concreto lhe prometeu Jefferson – e Silva Maia morreu antes de regressar ao Brasil. Outros, no entanto, voltaram, como os doutores Domingos Vidal Barbosa e José Álvares Maciel, muito entusiasmados com a ideia do levante.
Na corte, encontraram o alferes do Regimento de Dragões de Minas, Joaquim José da Silva Xavier, a quem, por ser dentista, chamavam de “Tiradentes”, e que lá se achava com dois meses de licença. Contaram-lhe os planos que tinham para sacudir o jugo lusitano e terminar de vez com a opressão da Coroa, a qual exigia impostos que o povo não podia pagar sem tremendos sacrifícios.
O debate acerca do lucro para Portugal em função do Quinto estava inflamado. Esse imposto significava a retenção de 20% de todo o ouro que era extraído no Brasil e levado às Casas de Fundição – que pertenciam à Coroa Portuguesa. Essa taxa cambial sofreu tanta rejeição que deu origem à expressão usada popularmente até hoje: “quinto dos infernos”.
As Casas de Intendência fiscalizavam e controlavam tudo o que saía e entrava, e o pagamento quinto de ouro extraído das Minas estava atrasado em 538 arrobas, cuja entrada para o Erário o Governo estava constantemente a exigir.
Interesses escusos
Em uma primeira reunião, realizada na casa do dr. Cláudio Manuel da Costa, foram redigidas as primeiras leis da nova república, inspiradas pela solene leitura da Constituição norte-americana de 1787. Em reuniões subsequentes, os membros aprovaram a bandeira e o lema do levante: “Libertas aut nihil”, substituído logo depois por “Libertas quae sera tamem”, que contornava um triângulo verde sobre campo branco.
Não havia muito cuidado nem reserva com relação a esses encontros e logo notícias sobre as confabulações chegaram aos ouvidos do governador Dom Luiz Antônio de Castro do Rio de Mendonça e Faro, Visconde de Barbacena. A primeira denúncia de fato foi apresentada por Joaquim Silvério dos Reis, que, em 15 de março de 1789, esteve no Palácio de Cachoeira do Campo dizendo ter fatos graves a relatar.
O Visconde o atendeu, porém, exigiu que o fizesse por escrito. Poucas semanas depois, o traidor lhe apresentou um documento datado de 11 de abril, na Borda do Campo, ao alto do qual o Governador escreveu, de próprio punho: “Escrita na Cachoeira e entregue pessoalmente no dia 19 de abril.
Os implicados na delação eram, então, os seguintes: o alferes Joaquim José da Silva Xavier; o desembargador.
Tomás Antônio Gonzaga, cuja responsabilidade sempre ficou a pairar dúvidas; o dr. Cláudio Manuel da Costa, que se suicidaria mais tarde na prisão; o dr. Inácio José de Alvarenga Peixoto; o dr. José Alvares Maciel; o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, subcomandante dos Dragões de Minas e cunhado de Maciel; o coronel Domingos de Abreu Vieira; o Pe. Carlos Corrêa de Toledo e Melo, vigário de São João Del-Rei, e seu irmão, o sargento-mor Luiz Vaz de Toledo Piza; o sargento-mor José Rezende Costa e José Joaquim da Rocha (pai e filho); o dr. Domingos Vidal Barbosa e alguns outros. Como se vê, todos formados e com cultura acima da média de seu tempo.
Outros delatores sucederam a Joaquim Silvério, entre eles o tenente-coronel Basílio de Brito Malheiro e o mestre-de-campo Inácio Corrêa Pamplona. O Visconde mandou, então, vigiar os conspiradores, especialmente Tiradentes, que se achava no Rio, e de quem o furriel Manuel Luís Pereira acompanhava todos os passos.
Finalmente, em 10 de maio de 1789, o alferes foi preso em visita à casa de Domingos Fernandes da Cruz, na Rua dos Latoeiros – hoje de Gonçalves Dias. O acusado de conspiração foi conduzido à Ilha das Cobras. Enquanto isso, em Vila Rica, ocorria inúmeras prisões e devassas eram abertas, uma em Minas, pelo governador; e outra na Corte, pelo Vice-Rei, Conde de Rezende.
Tiradentes foi submetido a 11 interrogatórios, já o Pe. José da Silva e Oliveira Rolim, a 15. Nenhum dos companheiros denunciados, em qualquer momento, acusou o alferes, pelo contrário, antes procuravam atrair para si toda a responsabilidade daquilo que a justiça da Rainha considerava como um “crime hediondo”.
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Tiradentes e a Inconfidência Mineira
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Por Rádio Transrio Manga
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